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Patsy Young: a mestre cervejeira que fugiu à escravatura

Coragem, improvisação e arte. Estes são os ingredientes principais da história de Patsy Young, uma escrava que viveu no início do século XIX e se tornou mestre da fuga, primeiro, e mestre-cervejeira, com reputação local e regional, depois.

A 22 de junho de 1808, Patsy Young, de 16 anos, fugiu de Nathaniel Hunt, que a escravizava na sua plantação de Franklin County, no estado da Carolina do Norte, Estados Unidos. Um ano depois, Hunt recorreu a um anúncio de jornal para tentar encontrar Patty. O texto aludia a algumas das características físicas da escrava, mas ainda não abordava a sua maior competência, rara naquela região e naquela época: Patty era mestre na arte de fazer cerveja. 


Não se sabe ao certo como é que uma escrava de 16 anos aprendeu a fazer cerveja, mas Theresa McCulla, a investigadora que descobriu esta história em 2021 (ver caixa), dá-nos duas dicas: terá aprendido com um outro escravo ou, posteriormente à sua fuga, numa das várias tabernas de Halifax, na Carolina do Norte. 


A tradição dos escravos cervejeiros


Nos primeiros anos de independência dos Estados Unidos da América, grande parte da cerveja era produzida pelos escravos dos grandes senhores ou políticos. São notórios, por exemplo, os casos de George Washington e Thomas Jefferson, pais fundadores e, respetivamente, primeiro e terceiro presidentes dos Estados Unidos. 

 

Foram os escravos das suas quintas e fazendas que plantavam os cereais e o lúpulo, colhiam-nos e preparavam a produção cervejeira. Pode dizer-se, por isso, que os escravos anteciparam a cultura cervejeira americana, que se enraizou na população e na cultura, economia e história do país. 


Nos séculos XVIII e XIX, no sul norte-americano, a cerveja era vista como uma alternativa segura às bebidas mais alcoólicas. Era consumida ao almoço, jantar e até, por vezes, ao pequeno-almoço. Mas a ausência de conhecimento sobre as técnicas desta arte e, sobretudo, a escassez de matérias-primas para produzir cerveja de qualidade significava que nem todos tinham acesso fácil à bebida.


Os agricultores e empresários mais abastados importavam London Brown Beer de Nova Iorque, a mais de 700 quilómetros da Carolina do Norte. De Filadélfia, a 550 quilómetros, chegavam as cervejas do estilo Porter, o mais popular nas principais cidades inglesas. 


Além de algumas cervejas ales caseiras, produzidas normalmente por mulheres, não havia notícia de produção cervejeira naquele estado. O censo federal de 1810, por exemplo, dá nota que das 132 cervejeiras existentes nos Estados Unidos, 103 estavam concentradas nos estados da Pennsylvania, Nova Iorque e Ohio. Na Carolina do Norte? Zero, um número que se manteve durante todo o século XIX. 


É neste cenário que Patsy Young, a mestre-cervejeira, prospera. A escrava em fuga percorreu várias cidades ao longo do rio Roanoke e ganhou a vida a produzir cerveja durante 15 anos. A longevidade no ofício sugere que Patsy teria boa reputação. Ainda assim, era uma vida dura: a jovem começava os dias a transportar e a cortar lenha para ferver a água, que tinha de procurar, com baldes, nos poços. 


Durante três horas, a cervejeira mexia a água para que esta se mantivesse quente, mas não exageradamente. Depois, juntava os grãos de cereais ao lúpulo e recomeçava o processo duas vezes. As jornadas de trabalho eram de 16 a 18 horas e, sem a ajuda dos termómetros nem refrigeração, Patsy fazia a cerveja “a olho”, utilizando apenas os seus sentidos e intuição.


Sobre os ingredientes utilizados para produzir a cerveja, pouco se sabe. No entanto, analisando os registos escritos de produções cervejeiras caseiras daquela época, e dada a escassez de alguns ingredientes-base, nomeadamente cereais, é provável que Patsy utilizasse pão tostado, açúcar mascavado, farelo de trigo, farinha de centeio ou melaço nas suas cervejas. Outros ingredientes podiam ser facilmente encontrados nas florestas: essência de abeto, sálvia, gengibre e limão, raízes de sassafrás, pimenta da Jamaica moída, comptonia, rábano-de-cavalo, gualtéria e bálsamo de Gileade.


Em 1820, Patsy teve uma filha, nascida livre, à qual chamou Eliza. Nesta altura, era uma das 142 mulheres negras livres de uma população de 17200 de Halifax County. Apesar do risco constante, Patsy Young casou-se, em 1822, com Ackil Johnston, um negro livre, e foi viver para uma quinta em Scotland Neck, Halifax County. Foi nesse local que, a 1 de junho de 1823, foi capturada. Tinham passado mais de 14 anos desde que os primeiros anúncios para a sua captura foram publicados, mas a denúncia de um vizinho curioso ou anónimo numa taverna foram suficientes para que Patsy, e agora também Eliza, voltassem para o cativeiro e para Nathaniel Hunt.

plantações de lúpulo

Segunda fuga: terá sido de vez?


Em agosto de 1824, catorze meses após ter sido capturada, Patsy fugiu novamente ao seu captor, levando a filha Eliza. Desta vez, Nathaniel Hunt esperou apenas 12 dias para publicar a recompensa pela sua recaptura nas capas dos jornais. O preço? 100 dólares. É através desta longa missiva que conhecemos parte do percurso da mestre-cervejeira. Hunt usa e abusa dos detalhes sobre a vida de Patsy, realçando a mestria na arte de fazer cerveja. “Fui informado de que é boa a fazer cerveja. É através desta ocupação que ela ganha a vida”, pode ler-se na mensagem. 


O anúncio foi publicado nove vezes na capa do Raleigh Register, a última das quais a 12 de novembro. A partir daqui, nada se sabe de Patsy, Eliza ou Ackil Johnston. 


Décadas depois, Nathaniel Hunt e a mulher mudaram-se para o estado de Tennessee. Hunt morreu em 1866, um ano após o fim da Guerra Civil Americana, na qual já não participou devido à idade. A vitória dos unionistas, e derrota dos confederados, como Hunt, levou à libertação imediata de quatro milhões de escravos, cerca de 13% da população norte-americana da altura. Terá Patsy Young sido um deles?

Quem descobriu Patsy Young?


A história da mestre cervejeira que fugiu duas vezes à escravatura foi desenterrada em 2021 por Theresa McCulla, curadora da American Brewing History Initiative, no Smithsonian National Museum of American History. Durante a pesquisa diária pelos jornais do início do século XIX, McCulla viu o anúncio da fuga de Patty no jornal Raleigh Register. Depois, a investigadora seguiu, a partir da imprensa, os passos da mestre-cervejeira escrava, mas também do seu captor, Nathaniel Hunt e do marido Ackil Johnston. Apesar das informações que iam aparecendo, o final da história permanece uma página em branco.

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